MG: consumo oscila na pandemia e produtores de leite reclamam dos baixos preços

Fonte: FAEMG


Às vésperas do Dia Mundial do Leite, os produtores encaram um momento de mais desafios do que comemorações. Com alto custo de produção e preço do leite em baixa, as mudanças de cenário têm sido diárias e os pecuaristas têm se esforçado para superar os obstáculos.


O analista de agronegócios do Sistema Faemg, Wallisson Lara, lembra que, para os produtores, os primeiros dias da pandemia foram de muitas dificuldades no escoamento da produção (inclusive com estradas fechadas e descarte do leite); ao mesmo tempo em que os consumidores corriam às compras. Crescia a demanda, especialmente, por derivados lácteos de mais longa validade, como o leite em pó e o UHT, que rapidamente registraram preços mais altos no varejo. “E pouco, ou nenhum, acréscimo ao produtor”, lembra. “O mercado logo mostrou que o movimento foi um ‘voo de galinha’ e o consumo declinou. Não sabemos os efeitos que a crise vai gerar no setor leiteiro, e temos tido dificuldades no planejamento de custos e investimentos, por exemplo, pois as informações e o cenário mudam a cada instante.”


Dois meses se passaram e a entrega do leite ordenhado aos laticínios já está normalizada na maior parte do estado. Mas o fechamento do setor foodservice (bares, restaurantes e lanchonetes) ainda dificulta a comercialização da produção para alguns segmentos, como o de queijos. Associações de queijeiros artesanais têm, inclusive, pleiteado tarifas especiais para o envio, pelos correios, dos produtos vendidos on-line.


“Para completar, o cenário da pecuária leiteira hoje é de elevados custos de produção. A relação de troca (valor do leite produzido x custo com alimentação do rebanho) é bastante desfavorável ao produtor. Em abril, foram necessários 47,6 litros de leite para a aquisição de 60 kg de mistura (ração). Para se ter uma ideia, no mesmo mês de 2019, essa relação ficava em 32,7 litros”, diz Wallisson Lara.


Liderança mineira: inovação e assistência técnica


Maior produtor do país, Minas Gerais ordenhou 8,9 bilhões de litros de leite em 2019 (ou 26,4% do total nacional, que foi de 33,8 bilhões de litros). O valor bruto da atividade (VBP) no estado ultrapassou R$ 9,5 bilhões. Uma das mais importantes e tradicionais cadeias do agro mineiro, a pecuária de leite está presente em todas as regiões de Minas. São mais de 3 milhões de vacas ordenhadas, em 225 mil propriedades rurais mineiras.


A produtividade média do estado é de 2.840 litros por animal ao ano (ou 9,3 litros/vaca/dia). Esse indicador é um dos que mais tem avançado ao longo dos anos, revelando o investimento dos pecuaristas em melhoramento genético, nutrição animal e cuidados diversos com o rebanho. “A genômica e a nanotecnologia têm ganhado espaço. Mas esse aumento da produtividade mineira é, sobretudo, resultado de assistência técnica continuada”, explica o vice-presidente do Sistema Faemg, Rodrigo Alvim.


O Balde Cheio (programa nacional da Embrapa gerido em Minas pelo Sistema Faemg) e o ATeG - Assistência Técnica e Gerencial, do Senar, são algumas destas iniciativas que auxiliam os pequenos produtores, gratuitamente, a alcançar maior produtividade e redução de custos. “Os técnicos orientam os produtores para o uso de técnicas e inovação de baixo ou nenhum custo, combinando e otimizando fatores produtivos que já têm em suas propriedades. Há casos em que o aumento da produção superou 1.000%. Em um país em que 80% dos produtores de leite estão em pequenas propriedades familiares, a assistência técnica tem sido fundamental para melhorar cada vez mais o trabalho e a renda de milhares de produtores”, diz Rodrigo Alvim.


Conseleite: valor referência facilita negociações entre produtores e indústria


Com a produtividade em alta, o desafio do setor é a negociação com os laticínios. Em atividade há pouco mais de um ano, o Conseleite/MG (Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do Estado de Minas Gerais) era um sonho antigo do setor. Uma das atribuições do colegiado é calcular um valor referência para o leite padrão no estado, reduzindo conflitos entre produtores e indústria que tiveram início na década de 1990, com a fim do tabelamento do preço do leite no país.


O presidente da Comissão Estadual de Pecuária de Leite da Faemg e membro técnico do Conseleite/MG, Eduardo Pena, explica que o valor de referência serve como uma base para a livre negociação. O índice é calculado mensalmente por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, a partir das informações colhidas pelo Conselho e de fórmulas matemáticas, que levam em conta os custos de produção da matéria-prima leite e de diversos derivados lácteos, bem como o preço de venda destes produtos, que é a capacidade de pagamento das indústrias.


“O valor de referência pretende representar, com objetividade e transparência, um valor justo para a remuneração da matéria-prima tanto para os produtores rurais quanto para as indústrias. E vem sendo importante tanto para o registro dos movimentos do mercado como para o planejamento do produtor em um curto prazo”, diz Eduardo Pena.


Sobre a Data Comemorativa


A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) instituiu, em 2001, o dia 1º de junho como o Dia Mundial do Leite para incentivar o consumo do alimento; importante para a saúde humana por ser rico em cálcio e outros nutrientes. Atualmente, mais de 85 países comemoram a data.


“O maior motivo para se comemorar o Dia Mundial do Leite é a alta qualidade que encontramos hoje no próprio produto, alimento tão completo e indispensável à vida, que deveria ser celebrado todos os dias. E é importante oportunidade de valorizarmos o leite, o trabalho dos produtores e da indústria, e de levarmos informações ao consumidor, promovendo cada vez mais o consumo.” - Rodrigo Alvim, vice-presidente do Sistema Faemg.


História e saúde


O leite de origem animal começou a ser consumido pelos humanos há 11 mil anos, com a domesticação da vaca, no Oriente Médio. Até pouco tempo, o consumo era apenas fresco, devido às dificuldades de conservação. Com novas tecnologias, surgiram os derivados, como a manteiga e o queijo, e a produção de lácteos se diversificou. No entanto, somente após a descoberta da pasteurização, em 1864, o processamento do leite ficou mais higiênico, a conservação mais fácil e o consumo foi intensificado. Hoje, a produção de leite no mundo ultrapassa 513 bilhões de litros por ano.


O Brasil ocupa a 65ª posição no consumo mundial de produtos lácteos, com uma média anual de 169 litros por pessoa, valor abaixo do ideal estabelecido pelas Nações Unidas, que é de 200 a 220 litros por ano.


O leite e seus derivados são os principais fornecedores de cálcio, nutriente essencial para a formação dos ossos. Além de conter proteínas, carboidratos, sais minerais e vitaminas (A, B1, B12), o leite é um dos alimentos de origem animal com menos colesterol.


Os tipos de leite mais comuns são: integral, semidesnatados, desnatado, enriquecido (com ferro e vitaminas) e sem lactose.


Os benefícios nutricionais também são marca dos produtos lácteos. O mix cresce a cada ano, expandindo o consumo e conquistando novas fatias de mercado. Queijos, iogurtes, creme de leite, doce de leite, requeijão, manteiga, ricota são alguns dos muitos produtos que garantem mais saúde ao consumidor e lucratividade a produtores e laticínios.

Publicado: 01/06/2020 por COOASAVI

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