Setores de soja e milho perdem R$ 10 bilhões com tabela de frete mínimo

A tabela de preços mínimos do frete rodoviário, criada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), causou prejuízos avaliados em R$ 10 bilhões, somente nos setores de soja e milho, em 20 dias de vigência. Esse dado foi divulgado na quarta-feira, 20 de junho, pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com base em informações de entidades de várias do setor.

De acordo com Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão Nacional de Logística e Infraestrutura da CNA, a tabela, nos moldes atuais, resulta em um aumento médio de cerca de 50% nos valores praticados no mercado antes da paralisação, sem considerar o pagamento do frete de retorno. “Também afeta os contratos firmados anteriormente com preços fixados com o comprador”, afirma.

Segundo a analista da CNA, antes da tabela, o valor do frete de Sorriso (MT), ao Porto de Santos (SP), um percurso de 2.064 quilômetros, era de R$ 290,00 por tonelada. “Aplicando a tabela, o preço chega a R$ 437,55 por tonelada, um aumento de 51%”, calcula. “Se não houver frete de retorno, o acréscimo é de 120%, o equivalente a R$ 637,10 por tonelada no percurso Sorriso a Santos.”

Considerando um caminhão que transporta 38 toneladas, a diferença é de R$ 5.606,82 com frete retorno e R$ 13.189,90 sem frete retorno. O valor total praticado antes da tabela ANTT era de R$ 11.020,00, da origem ao destino.

Prejuízos

Para se ter uma ideia, em 15 dias de tabelamento, 6,8 milhões de toneladas de soja e farelo deixaram de ser exportadas. Nesse período 60 navios ficaram parados nos portos. Considerando a demurrage de US$ 25 mil a US$ 35 mil, por navio, os prejuízos diários foram estimados entre US$ 1,5 milhão e US$ 2,1 milhões. No período, as perdas ficaram entre US$ 22,5 milhões e US$ 31,5 milhões, o equivalente a R$ 84,4 milhões e R$ 118,1 milhões. As multas com os navios parados nos portos já passam de R$ 135 milhões no mesmo período.

Outros setores

Além da soja e do milho, outros setores do agronegócio foram afetados pelo aumento no valor do frete. De acordo com o levantamento da CNA, a partir dos dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a tabela do frete mínimo elevou em 100% o custo das empresas com o transporte interno de café. Na Zona da Mata de Minas Gerais, por exemplo, estima-se que 80% do fluxo da região foi afetado. Além de dificuldade na entrega do grão para torrefadores de regiões distantes, ocorreu o comprometimento entre 50% a 60% do fluxo para os embarques rodoviários internacionais e de 80% a 90% (frota própria) para o transporte da carga aos portos brasileiros.

No caso do arroz, o aumento do valor do transporte rodoviário foi estimado em 100% para as exportações, isso porque 50% dos embarques ficaram parados nos portos. No mercado interno, o aumento variou de 35% e 50%, com reflexos na elevação de 10% do preço do produto para o consumidor final.

Já o valor do frete para transportar o feijão, cresceu entre 14% e 25%. Como resultado, os preços do produto subiram entre 15% e 20% nas gôndolas. Além disso, houve atraso de embarques, cancelamentos de negócios ou ainda renegociação de valores para o envio fora do prazo.

A indústria de aves e suínos também sofreu o impacto do tabelamento sobre o custo do transporte, na faixa de 63%. Além disso, o frete de rações para os animais deve aumentar 83%.

Ainda conforme o levantamento, os segmentos de floresta, papel e celulose registraram elevação média de 30% no frete. Com isso, estima-se aumento de preço dos produtos para o consumidor final, sendo de 5% a 8%, no caso de celulose; de 15% a 20%, no papel; e de 5% a 8%, para os produtos madeireiros.

Segundo informações fornecidas pela Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas (Abrafrutas), o custo de frete para o setor foi elevado em 30%, com maior prejuízo no Nordeste, pela ausência de frete retorno.

Efeitos do tabelamento

De acordo com o Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (ESALQLOG), de Piracicaba (SP), o aumentos nos preços de fretes rodoviários de forma artificial trazem impactos sistêmicos na economia, inclusive na elevação dos preços de fretes de outros modais de transporte, como ferrovias e hidrovias, que, muitas vezes, precificam a sua atividade em função de descontos no transporte rodoviário de cargas.

Conforme o Esalq-LOG, a formação do frete tende a considerar variáveis como tipo de carga, distância, concorrência entre produtos e regiões, peculiaridades diversas, que nem sempre são computadas no tabelamento. Além disso, o tabelamento encarece o custo do transporte de alguns setores do agronegócio brasileiro, nas análises comparativas dos preços de mercado e dos valores tabelados.

Fonte: SNA/SP


Publicado: 25/06/2018 por COOASAVI

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